O consumo de bebidas alcoólicas

               Não sabemos exatamente há quanto tempo o ser humano iniciou o consumo de bebidas alcoólicas. Acredita-se que com o surgimento da agricultura, provavelmente os homens descobriram acidentalmente que a fermentação de algumas plantas dava origem a líquidos que causavam efeitos “diferenciados” em que os ingeria. Indícios apontam uso dessas substâncias em 8.000 anos A.C. na China.

               O consumo do álcool acompanha o ser humano desde então, sendo encarado de diversas formas no decorrer do tempo pelas diferentes culturas. Já foi usado para fins religiosos, de alimentação e como forma de divertimento e lazer. Seu consumo já foi incentivado e, por outro lado, proibido pelo estado.

               Sabemos que atualmente o consumo de álcool médio pela população mundial não é o mais alto da história. Houve períodos e civilizações em que o uso superava o que fazemos hoje em algumas vezes. Porém, com o avanço da ciência, conseguimos perceber os efeitos devastadores que o uso exagerado de bebidas alcoólicas pode fazer com os indivíduos e sociedades.

               Existem algumas definições importantes para que entendamos quando o uso de álcool começa a ser considerado um transtorno mental. Obviamente, não são todas as pessoas que consomem a substância que recebem esse diagnóstico.

               Segundo o DSM 5 (um dos principais manuais para classificação dos transtornos mentais), para afirmarmos que alguém possui um transtorno por uso de álcool, alguns critérios devem ser preenchidos. O primeiro deles, que é necessário e, de certa forma, comum a todos os outros transtornos mentais citados no manual, é que o padrão de uso do álcool deve levar a um prejuízo ou comprometimento significativo para o indivíduo, ocorrendo durante pelo menos 12 meses.

Tal prejuízo é manifestado por pelo menos dois dos seguintes: consumo do álcool em doses maiores ou por mais tempo do que o pretendido; esforços malsucedidos em interromper o uso; fissura (forte necessidade ou compulsão à bebida); importantes prejuízos sociais, familiares ou profissionais decorrentes do uso; tolerância (que é a necessidade de doses cada vez mais altas para ter o mesmo efeito); síndrome de abstinência (sintomas que ocorrem quando se interrompe o uso); dentre outros.

               Em relação à prevalência do transtorno por uso de álcool, notamos que são variáveis dependendo da região, sendo que o DSM 5 cita 3,5%, em níveis mundiais, com observação de níveis menores em países africanos e até 8,5% nos Estados Unidos e 10,6% em alguns países da Europa Oriental. Estimativas da OMS mostram que cerca de 300 milhões de pessoas (5% da população mundial) morrem por ano por doenças relacionadas ao uso de álcool.

               O consumo de álcool, de forma geral, tem se mantido estável nos últimos anos, segundo as pesquisas. Em geral, os homens consomem mais e tem maiores taxas de prevalência de transtorno por uso da substância, porém, recentemente tem-se notado o aumento do consumo e das taxas de prevalência do transtorno entre mulheres. Alguns fatores sociais e culturais ajudam a justificar tal tendência, como o aumento das taxas de mulheres que trabalham fora de casa, com manutenção de remuneração desigual, intensas cargas de trabalho e a segunda jornada que fazem quando chegam em casa.

               Além disso, temos a recente preocupação de que a pandemia de COVID 19, com tudo que ela trouxe de mudanças para nosso dia a dia, possa ser causa de um aumento de consumo nos próximos meses/anos. Alguns estudos já têm mostrado relatos de pessoas que aumentaram o consumo de bebida alcoólica durante a pandemia, como a realizada por pesquisadores da Fiocruz em parceria com a UFMG e Universidade Estadual de Campinas, que mostrou que 18% das pessoas entrevistadas relataram tal situação.

               O transtorno por uso de álcool tem origem multifatorial. Há importantes fatores biológicos, genéticos, psicológicos, comportamentais e sociais. E suas consequências não se limitam ao indivíduo acometido, mas sim a toda a sociedade. Casos de acidentes envolvendo pessoas embriagadas, aumento da violência e aumento de gastos em saúde são exemplos de situações em que outras pessoas que não o próprio usuário acabam sendo envolvidas no problema.

               Considerando essa origem (multifatorial) e as consequências, que são individuais e sociais, o tratamento deve abranger todos esses aspectos. Por isso, as intervenções mais bem-sucedidas costumam envolver várias formas de abordagem e equipe multidisciplinar.

               Hoje temos experiência de várias intervenções comportamentais, como Terapia Cognitivo Comportamental, Entrevista Motivacional, Programa de 12 passos, dentre outras que mostraram ser efetivas no tratamento do transtorno por uso de álcool. Além disso, alguns medicamentos já mostraram boas respostas, como o Dissulfiram e a Naltrexona.

               Além do tratamento, medidas de prevenção são fundamentais para reduzir os impactos negativos do consumo de álcool na sociedade, sendo as políticas públicas bem implementadas as principais armas para atingir esse objetivo. Com os estudos, esperamos que cada vez mais possamos desenvolver estratégias do ponto de vista social e individual que nos permitam lidar com essa questão de forma mais equilibrada.

Fontes:

MIGUEL, E.C et al (Eds.). Clínica Psiquiátrica: As grandes síndromes psiquiátricas. [S.l.: s.n.], 2020.

FioCruz. ConVid Pesquisa de comportamentos. Rio De Janeiro: FIOCRUZ/ICICT; 2020.

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

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